9 de jan de 2014

Diário de Bordo #22

postado por Caleb Henrique




Olá, Viajantes!
Alguém sentiu falta do Diário de Bordo? Espero que sim.
O escrito de hoje é bem especial para mim e tem menções de um dos meus livros prediletos: O Pequeno Príncipe. Espero, de verdade, que gostem.


O GAROTO DAS LÁGRIMAS


Distraído e trôpego ele veio.
Veio de onde? Eis a questão.
Do misterioso país das lágrimas, talvez.
Caminhou em minha direção e, ao se aproximar, parou.
Muito falou, mas nada disse de fato.
Seus olhos pediam algo que sua boca não sabia expressar.
— O que de fato procuras? — indaguei.
A pergunta repentina trouxe surpresa aos seus olhos (seriam lágrimas aqueles brilhos nos cantos?) e fez com que, estupefato, calasse em meio à frase anterior. O lábio tremeu um pouco, como se tomando coragem, e seus olhos pareciam indagar se eu realmente tinha feito a pergunta ou se tudo não passara de imaginação.
— Eu procuro amigos. — respondeu, então.
Minha vez de ficar surpreso. “Tu não és daqui.” foi a primeira resposta que me veio a mente num acesso de nostalgia. Devo ter piscado os olhos. Eu podia esperar qualquer resposta, menos aquela. Passado o rompante de surpresa, prossegui — Sabe onde eles moram? Você não é desta cidade, certo? Avisou a eles que viria? Marcou algum ponto de encontro e não consegue localizar? — Disparei as perguntas, uma atrás da outra.
— Não exatamente — respondeu levemente acuado e decepcionado. — É minha primeira vez na cidade, na verdade, mas não importa. Obrigado pela ajuda. — e, dito isto, virou-se e prosseguiu sua caminhada.
— Espere! — ouvi as palavras saírem de minha boca sem saber realmente o porquê de tê-las pronunciado. — Você tem certeza de que vai ficar bem? Não me parece uma boa ideia sair caminhando sozinho numa cidade onde não se conhece nada ou ninguém. — prossegui.
Voltou-se e me fitou, mas nada respondeu. Havia uma espécie de tristeza profunda em seu olhar e ele parecia estar à beira das lágrimas. “Será que foi algo que eu disse?” não pude deixar de me perguntar. Caminhei em sua direção e parei bem em sua frente. — Como você se chama? — perguntei, embora essa, muito provavelmente, fosse a pergunta mais estúpida para a situação.
Pareceu me estudar por alguns momentos e num meneio de cabeça fez sinal para que o acompanha-se na caminhada. Fui. Contou-me sua história no caminho. Nascido em cidade pequena e o mais novo dentre os muitos irmãos e irmãs. Falou-me de sua infância, seus sonhos e, mesmo que nada tenha dito a respeito, pude vislumbrar que possuía fé e um coração grandioso. Senti vontade de questionar sua tristeza iminente, mas não seria sensato de minha parte — Você sempre faz isso? — foi o que perguntei, tentando ser o mínimo rude possível. — Isso o quê? — perguntou-me. — Sair por aí sem rumo e contar sua história a desconhecidos? — e a pergunta deve ter soado mais rude do que desejei, então logo repliquei — Desculpe, só estou tentando entender. — Não se desculpe, por favor. Não. Eu não saio muito de casa, na verdade. Essa é, muito provavelmente, a maior imprudência que já cometi. Entrar num ônibus sem rumo certo na busca por amigos. Não sei dizer o porquê, mas você me passou confiança. Talvez seja a forma como observa o mundo ao seu redor, como se você se importasse. Realmente não sei ao certo, mas obrigado por me ouvir — disse com uma profunda sinceridade. — Eu quem agradeço. Não é todo dia que se pode encontrar alguém de tão nobre coração. — Respondi e ele me sorriu em agradecimento antes de dizer — Preciso partir. O último ônibus sai daqui a pouco tempo — e ele tinha razão. — Certo. Volte sempre que quiser e me procure se precisar conversar — tateei o bolso em busca de um de meus cartões de visita e lhe estendi. — Certo. Obrigado mais uma vez. Até mais? — sorriu. — Até! — respondi enquanto observava o garoto das lágrimas partir e murmurava “Se tu queres um amigo, cativa-me!”. Não sei se ele chegou a ouvir, mas sem virar-se levantou um braço e, com um aceno de despedida, se foi.

Caleb Henrique



Como frisei anteriormente, é um texto especial para mim, então: O que achou?
Espero sua opinião sincera.

Assim me despeço, com a promessa de voltar.
E como há braços, abraços.