26 de jun de 2014

Diário de Bordo #23

postado por Caleb Henrique



Olá, Viajantes!
Senti tanta falta do Diário de Bordo  e tomara que vocês também!
Confesso que esse não era o post que programei para hoje, mas por ser uma data especial, fui acometido por essa vontade de louca de escrever. Hoje é aniversário de uma das pessoas mais especiais [E LOUCAS] que já cruzaram o meu caminho e é inteiramente para ela que o texto é dedicado:


ON THE ROAD


Os dias passavam sem nenhuma alteração brusca. Trabalho. Rotina. Um ou dois sorrisos corriqueiros, mas nada tão grandioso quanto o que silenciosamente pedia sua calorosa alma. Seguia a vida por seguir. Sem esperar muito — ou, talvez, esperando tudo.

A decisão veio de supetão. Iria viajar. Algumas ligações, uma necessidade camuflada de precisão — uma desculpa justificável, ao menos — e logo as passagens estavam compradas.  Uma vez mais deu início ao difícil processo de fazer as malas. Acredito que fazer as malas é umas das coisas mais saborosas e, ao mesmo tempo, mais assustadoras que existem. A gente sempre acha que sabe o que nos espera, enquanto escondemos lá no fundo a certeza de que o acaso é imprevisível. Não levaria muita coisa, isso é certo. O foco principal da viagem seria buscar. Buscar o quê? Eis a questão. Alguns pertences esquecidos ou uma resposta da vida, talvez. Isso era o que menos importava. Ela nunca saberia com certeza o porquê de as pessoas irem embora, mas acabara de descobrir por que elas voltam.

Malas prontas e coração disparado, logo estaria voando rumo ao lugar para o qual sua mente lhe levava a cada rompante de distração. Não fazia muito sentido esperar sentada, então decidiu sair para uma breve caminhada.

Por inúmeras vezes fora acometida por um sentimento de nostalgia observando cenas corriqueiras às quais raramente damos a devida atenção. Observou por alguns instantes um jovem casal em um banco de praça. Sorvetes nas mãos e o que parecia ser o cenário de um de seus primeiros encontros. Sorriu consigo mesma enquanto observava a jovem pedir para que ele lhe deixasse provar um pouco do seu sorvete — e ao vê-los estremecendo de leve ao saborear o breve choque dos primeiros toques. Lembrou de si mesma — e dele — em um passado que agora parecia distante demais, sorriu mais uma vez e seguiu a caminhada. Essa é outra daquelas coisas que me intrigam a mente. O ar sempre parece diferente quando sabemos que vamos viajar. É como se o dia já nascesse com um presságio de mudança. De algum modo, tudo parece um pouco mais bonito, como se nunca mais fossemos ver aquela paisagem a qual estamos tão habituados. Uma chance de guardar os melhores ângulos em nossos corações, talvez. Ou apenas mais uma das coisas que ninguém sabe.

Já no aeroporto viu uma cena comovente de reencontro. Uma garotinha corria em direção aos braços de sua mãe que de braços abertos a segurou e beijou o topo de sua cabeça. Sentiu a saudade apertar um pouco seu peito — era inevitável pensar em sua própria mãe. Perguntava-se se ela sentiria orgulho ao ver quão forte havia se tornado. Sabia a resposta e que ela sempre estaria ao seu lado, mas trocaria toda essa força por mais um abraço. Foi tirada de seu devaneio pela chamada de seu embarque. Havia chegado a hora. Embarcou. Fez uma prece silenciosa e, enquanto o avião decolava, sussurrou um até logo — embora bem lá no fundo quisesse que fosse um adeus.

Ao desembarcar, em plena madrugada, o viu. Parecia uma eternidade desde a última vez que se viram e ela não percebeu que estava correndo até se jogar em seus braços. Ele a abraçou forte, e seu abraço era ainda melhor do que a cena que ela fantasiara tantas vezes em sua mente, sentiu o roçar dos lábios dele em seu ouvido, seguido pela rouquidão de sua voz. — Eu sei que já passou da meia-noite, mas — ele sussurrou — feliz aniversário, meu amor. Durante todo o dia ninguém viu, soube ou desconfiou de que era o dia de seu aniversário. Guardou para si mesma o maior dos presentes. Segurou o rosto dele, sorriu e o beijou. Era bom estar de volta.

Caleb Henrique


Peço, por fim, sua opinião sincera nos comentários (ela é muito importante para mim).
Assim me despeço, com a promessa de voltar.
E como há braços, abraços.